Sabia que os melhores meses para se podar uma árvore são os meses que não possuem a letra R? Maio, Junho, Julho e Agosto. As grevilhas são podadas nessa época. Grevilhas são árvores muito lindas, árvores de floresta temperada. Passei toda a minha infância rodeado delas. Ainda sinto o cheiro...
Todo ano a gente esperava. E como esperávamos. Nossa maior alegria era ver o Sr. Heitor se preparando para podar a primeira das muitas grevilhas do condomínio. Sr. Heitor era uma espécie de faz-tudo. Bigode, barba mal-feita e óculos trincados, o velho era encanador, eletricista, jardineiro, pedreiro e tudo o mais que precisasse. Ranzinza, mas de bom coração, ficava nervoso com a nossa presença. Só ele e o Sr. Marino, o porteiro, sabiam o porquê daqueles olhinhos brilhantes, acompanhando cada galho de grevilha que ia ao chão. Os galhos maiores e robustos tombavam acompanhados de um "Oh" coletivo. Quem nos via observando a poda não entendia qual a graça de ficar ali parado, enquanto tinha tanta coisa com que brincar, afinal, éramos crianças, da mais tenra idade.
Fim do dia. Os muitos galhos e folhas eram amontoados e jogados no terreno baldio ao lado do prédio. Eram inúmeras viagens com um carrinho-de-mão, sempre lotado de galhos. Escurecia. Nós íamos para nossos apartamentos, elétricos, querendo gritar e pular ao mesmo tempo. Andávamos todos descalços, com os chinelos entre os dedos das mãos. Eu morava no Bloco B. Era difícil pegar no sono, tamanha a ansiedade para que o dia seguinte chegasse logo. Eu apertava o travesseiro de empolgação, e me revirava na cama até o lençol cair. Aí eu acabava dormindo, com o travesseiro nos pés e a cabeça pra fora da cama.
Logo cedo, já estava todo mundo reunido na grama, ao lado da piscina. As idades variavam de 7 a 14 anos — éramos muito unidos, muito amigos. Só faltava o Tiagão, também conhecido por Teta. Ele ia liderar o grupo esse ano. Enfim ele aparece, com uma folha de papel em uma mão e um gravetinho de — adivinha — grevilha noutra. Fomos todos em direção ao terreno baldio. Uns, mais afoitos, chegavam antes, mas depois voltavam para acompanhar o grupo que tentava ver o desenho do papel, em vão. O mistério acaba aqui. No papel tinha a "planta" de nosso mais ambicioso projeto, uma espécie de barraca gigante, feita de galhos e folhas de grevilha. Essa seria a quarta versão do projeto em quatro anos, desde que tivemos a idéia genial de abrigar-nos, nós e nossos sonhos, dentro de um mundo feito por nós.
Era o nosso maior orgulho. Essa seria a mais perfeita de todas as barracas já feitas. Aprendemos muito com os defeitos e problemas que culminaram na destruição das antecessoras. É por isso que essa teria um esqueleto reforçado e unido por coxim (uma espécie de borracha adesiva para recapar pneus), que foi colocado em cada junta de galhos, para dar melhor sustentação — a primeira barraca mal parava em pé. Teria também um sistema anti-incêndio, composto por várias garrafas pet de 2 litros cheias d'água, e que eram enfileiradas estrategicamente no teto, onde os galhos se cruzavam formando um garfo — a segunda barraca virou cinzas, foi incendiada por um piromaníaco anônimo. Contaria, dessa vez, com um moderno sistema de armadilhas contra estranhos invasores, tais como buracos camuflados em volta desta, lanças afiadas que caíam do teto se acionadas por alguém e um sistema eficiente de vigília, através de pequenas frestas estratégicas na barraca, dando uma cobertura de 360º do terreno — a terceira barraca foi invadida e destruída por meninos de rua do bairro, nossos arquinimigos, num momento de descuido. Lembro o nome de um deles até hoje: João.
A construção durou 2 ou 3 dias, não me lembro. Só me lembro dela pronta. Era em forma de um tridente. Havia a entrada principal, que dava para um grande corredor que se dividia em 3, sendo que cada um possuía uma entrada secundária. Em alguns lugares da barraca era até possível ficar de pé. Não demorou muito, e o pessoal começou a trazer objetos de casa. Panos rasgados, colchão velho, rádio de pilha, lanternas, facas e, claro, muita comida. A princípio fomos nos acomodando onde dava. Cabia todo mundo. Tudo era de todos.
Mas não passou nem um dia, e já se via discussões sobre fulano que invadiu o espaço de beltrano. Pronto, aí começou a confusão. A Tridente, como ficou conhecida, foi dividida então em pequenos lotes para cada um. Mas uns reivindicavam lotes maiores, pois diziam ter ajudado mais que outros. E outros, que nem participaram da construção, apareciam querendo comprar lotes de uns. Tinha, ainda, alguns que reclamavam da localização de seu lote. Falavam que estavam tendo problemas com o vizinho do lado, ou que não tinham uma vista bonita do terreno. Criou-se, então, regras de conduta e boa convivência. Parece brincadeira mas é a pura verdade. Esses acontecimentos me fizeram compreender que o comunismo e o socialismo são tão utópicos quanto seus idealizadores. É cada um por si e Deus por todos. Sempre foi assim e sempre será. E ali na Tridente não era diferente. Precisava ter um soberano, no caso o Teta, para tomar as decisões pelo grupo, em prol do grupo.
Numa tarde, quando a Tridente foi invadida por 3 jovens (naquela época um jovem de 15, 16 anos era um gigante para nós) , sendo que um deles estava armado com revólver, eu percebi que nossa alegria ali já não duraria muito. Levaram algum dinheiro e comida e foram embora, tranqüilos. Depois desse episódio, já era notável os lotes vazios que iam aparecendo na barraca a cada dia. Por outro lado, foram-se definindo os verdadeiros moradores da Tridente.
Na frente do terreno, morava uma mulher que nos odiava. Só podia ser ódio aquilo, pois ela tentou botar fogo na Tridente várias vezes, sem nenhum motivo aparente. Não deu certo, claro. Mas o dia tinha chegado. Uma semana depois de sua construção, a barraca amanheceu destruída. Totalmente retalhada. Não tínhamos o que fazer, não sabíamos nem quem foi que cometeu tamanha crueldade — Até hoje eu ainda acho que foi o Sr. Marino, o porteiro. Ele nunca foi com a nossa cara. Ficamos um tempo ali, contemplando aquele momento de alívio. Alívio? Pois é, eu me sentia aliviado. Acho que todo mundo ali se sentiu aliviado também. A Tridente se tornou um grande fardo para nós, e agora estávamos livres dele. Lembramos que naquele mesmo terreno baldio tinha várias espécies de aranhas, das mais horrendas. Então fomos caçar aranhas...
13.12.03
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