A JUSTIÇA TARDA, E FALHA
— Será que não dá pra você parar de pensar somente nessa tua bunda cansada e nessa sua vidinha mesquinha e tratar de ceder seu lugar no banco do ônibus para esta senhora aqui do lado que mal se agüenta em pé, hein??? É tão difícil ficar de pé? Por acaso você é aleijado??? — gritei pro piá. Silêncio geral. Bá, era mais um daqueles insuportáveis playboys-sapato-caramelo-cabelo-lambuzado, pensei. Pensei, mas devia ter falado, me arrependi na hora. O mané merecia uma bronca pra se tocar. Eu já não agüentava mais ver sempre a mesma cena: jovens sentados confortavelmente no banco enquanto velhos se debatem e voam pelos cantos do ônibus, e com esses motoristas educados que temos em Curitiba não é raro ver algum idoso se espatifando no chão. Eu sempre olhei quieto (ou quéto, como dizem por aí), mas dessa vez eu não me segurei, ainda mais depois que vi a cara do indivíduo, todo faceiro, sorridente.
— Não precisa, eu já vou descer agora, meu ponto chegou — falou a velha senhora em seguida, querendo ser simpática comigo, e já tentando serenar o clima tenso. O ônibus pára, eu ainda tenho que segurar a velha pra ela não ir longe. Fico ali, vendo-a descer os degraus, eu indignado ainda. O silêncio continuava. Então eu percebo todo mundo no ônibus olhando pro chão, atrás de mim. Eu sinto um leve puxão nas calças, na altura do joelho. Me viro. Era o playboy-sapato-caramelo-cabelo-lambuzado, se arrastando pelo ônibus em direção à porta.
— Me ajuda a sair do ônibus? — o cara diz, na maior camaradagem.
— C-claro!
Desci o inválido até o ponto. Não sabia o que fazer... a vergonha era tanta... saí correndo, no galeto. "Go Run, Forrest! Go Run!" eu ainda ouvi. Nunca corri tão rápido na minha vida. Mas que bairro era esse em que fui parar? Demorei 3 horas pra voltar pra casa.
7.4.04
<< Home

