LULA + CENSURA = FIDEL
O texto é longo, mas todos devem ler. Afinal, é sobre o nosso presidente que pesa tudo isso. O jornalista não quis ser identificado, mas ele só fala de fatos, então é verdade:
Caros colegas,
Vou ser um pouco extenso, quem não tiver paciência, passe pra frente.
A medida tomada ontem à noite já passa para a história como uma das maiores agressões do chefe de Estado brasileiro a um jornalista desde o fim da ditadura militar. Mas nós não deveríamos ter ficado tão surpresos. Esse ato repugnante é o ponto alto de uma série de fatos dispersos que, vistos em conjunto, podem ajudar a melhor compreender o atual episódio:
1-Em outubro de 1999, o jornalista Luiz Maklouf Carvalho foi impedido de participar de uma entrevista coletiva com Lula no programa Roda Viva. A ordem veio do entrevistado, sob alegação de que tinha um "problema pessoal" com o jornalista, o que foi por este negado. Maklouf é autor de inúmeras reportagens que incomodaram Lula, como a que revelou que o petista tinha uma filha pouco conhecida. Isso não é um "problema pessoal". É jornalismo. O programa Roda Viva aceitou o veto, embora alguns colegas tenham denunciado o veto no ar. Se não estou enganado, o jornalista Ricardo Noblat foi o primeiro a protestar;
2-No primeiro final de semana após ter vencido as eleições, o futuro presidente da República desapareceu. Sua assessoria se negou a divulgar a agenda. Lula só foi achado no final do domingo pelo Fantástico, deixando uma casa desconhecida em Araxá (MG). Dois dias depois, o Painel da Folha revelou o seguinte: "Tratamento VIP. A casa em Araxá (MG) em que Lula passou o final de semana pertence ao fundo de pensão da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, do Grupo Moreira Salles (controlador do Unibanco) e da multinacional Molycorp (Estados Unidos). A companhia exporta 95% do nióbio que retira de MG e é a maior exploradora do metal no mundo". Meses depois, um segurança da equipe de Lula contou que aquele final de semana foi comemorado por toda a equipe. Acharam incrível ter ludibriado a imprensa de forma tão perfeita. Foi assim: a segurança dividiu a comitiva em duas - uma com Lula, outra sem o presidente. A imprensa ficou atordoada e seguiu o carro errado. Então o candidato eleito pôde pegar um jatinho e ir anonimamente para a casa do banqueiro;
3-Em junho de 2003, o jornalista Fernando Rodrigues escreveu notícia sob o título: "Planalto mantém jornalistas longe do presidente". O texto informou: "O Palácio do Planalto mudou o formato de cerimônias públicas às quais está presente o presidente da República. Agora, repórteres ficam confinados em um cercado montado no fundo do salão, sem permissão para circular". Truque semelhante, mas muito mais grave, foi usado pela prefeita de SP, Marta Suplicy, no primeiro dia no cargo, em 2001. Ela determinou que os jornalistas fossem trancados numa sala da prefeitura. Pôde então andar à vontade pelo prédio, sem que a imprensa registrasse;
4-Em novembro de 2003, o presidente da República de novo enganou toda a imprensa. Manteve hasteada uma bandeira nacional no Palácio do Alvorada, quando na verdade estava na Granja do Torto, discutindo alguma coisa "importante" com os seus ministros. Pela tradição, a bandeira hasteada indica a presença do chefe de Estado no palácio. A imprensa registrou o seguinte no dia seguinte: "A imprensa foi levada a acreditar que o presidente estaria descansando na residência oficial tanto pela manutenção da bandeira no mastro quanto pelas declarações dadas pela assessoria de imprensa do Palácio do Planalto";
5-No início de 2004, novamente o presidente da República ludibriou a imprensa. Estávamos fazendo o tradicional plantão na porta de seu edifício, em São Bernardo do Campo, porque a assessoria do presidente confirmava, a quem perguntasse, que ele estava "descansando com seus familiares" no apartamento. E o porteiro do edifício confirmava, e os seguranças que iam aparecendo confirmavam. Mas um motoqueiro da Rede Globo de nome Gilvan resolveu dar uma olhada no que estava ocorrendo no sítio de Lula chamado "Los Fubangos", que fica perto da represa Billings, em Ribeirão Pires, a cerca de 10 km de sua casa. Descobriu-se então que o presidente estava lá com a primeira-dama, seus filhos e outro tanto de seguranças desde às 6h00 da manhã, segundo apuramos depois. E já eram 14h00 quando descobrimos a mentira (antes que algum colega que desconhece a rotina da cobertura "acuse" a imprensa de invasão de privacidade, esclareço que os plantões são feitos na porta das casas dos presidentes, quando estão fora de Brasília, há muitos e muitos anos. No caso de Lula, os jornalistas sempre se mantêm respeitosos, guardando a devida distância da portaria do prédio. Ficam ali à espera de uma declaração oficial ou da visita de alguma autoridade);
6-No último dia 1º de Maio, toda a imprensa que registrava a participação de Lula na missa da igreja matriz de São Bernardo do Campo foi trancada numa sala pela equipe do presidente no momento em que ele deixava a igreja. A equipe de Lula não queria que a imprensa registrasse alguma vaia contra Lula, que acabara de anunciar um salário mínimo ridículo. A imprensa só foi "libertada" depois que Lula deixou o local (ele não foi vaiado);
7-Em 22 de março de 2004, o repórter Flávio Freire, de "O Globo", foi xingado de "mau caráter" pelo ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. A pergunta do repórter, feita em tom educado, como os colegas presenciaram, foi se Dirceu havia se encontrado recentemente com o seu ex-assessor Rogério Tadeu Buratti, envolvido no escândalo do outro ex-assessor, Waldomiro Diniz. Pergunta altamente pertinente. Só isso. Seguiu-se um bate-boca, no qual Dirceu chamou os outros repórteres de "bando de mal-educados";
8-Há 16 meses Lula não concede uma entrevista coletiva que possa receber esta denominação. Ao receber 17 jornalistas numa casa em Brasília para um jantar, determinou que não fossem usados gravadores durante o encontro, o que é um absurdo sem medida.
Os exemplos não acabam por aqui, dá pra escrever muito mais.
Mas eu fiz todo esse relato para dizer uma coisa: estamos dando de barato que essa expulsão tenha sido um "erro", uma "bobeira" do governo federal. Essa expulsão pode representar uma outra coisa, muito mais grave, como um recado detidamente pensado de um governante ou de um governo que já deu mostras de menosprezo aos jornalistas.
A Fenaj deve estar vigilante, os sindicatos devem estar vigilantes, a Abraji deve estar vigilante.
Peço que esta mensagem, uma opinião de natureza pessoal, permaneça nesta lista.

